Capítulo 2
“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.”
Albert Einstein
- Maldito programa!
Sirius jogou o controle da TV longe. Estava cansado das discussões calorosas sobre seu projeto. Encostou sua cabeça no sofá e escutou.
- Mas a senhora não acha que este, chamado projeto, não vai contra os pensamentos de Deus? Este doutor, com nome estranho…
- Sirius. O pai do doutor era um antropólogo grego e sua mãe… – disse a tal da senhora.
- Sim, sim… estamos cansados de saber sobre quem são seus pais. Principalmente sua mãe. Joana era uma mulher admirável, diferente do pai e do filho. Deus! Ela foi uma das mulheres que lutaram pela liberdade religiosa!
“E morreu pelas mãos de um louco que achava sua idéia um absurdo…” – pensou Sirius. Ele levantou-se e foi até a cozinha, enquanto deixava os dois discutindo sobre seu projeto. Olhou novamente para a secretária eletrônica, 28 mensagens. Nem queria ouvi-las. Sabia muito bem o que diziam. Desde que começou o projeto 3º Dia, a imprensa, e principalmente os religiosos, o colocaram na mira. Não entendia porque tanto alvoroço! A final de contas, ele apenas conseguira desenvolver um modo de colocar as pessoas para “dormirem”. Pessoas com doenças que nossa medicina ainda não pudera curar. Que problema havia nisso! A criogênia era melhor do que a clonagem! Isto sim era uma afronta. Ainda bem que fizeram a Lei em favor dos Clones. Quantos andavam por aí? E quantos nem ao menos sabiam quem eram. O único problema, era sua vida útil. Chegavam a no máximo 30 anos, e depois morriam. Mas eram fortes, mais inteligentes… e agressivos. E heis o grande problema.
Sirius ainda se lembrava da Guerra. Clones, homens e cyborgs. Os cyborgs eram como nós, mas sem emoções. Homens de lata, como ele costumava chamá-los, mas com pele e Inteligência Artificial. Já os Clones… Sirius os admirava, tanto que ganhou o apelido de “namoradinho clonico”. No começo achou engraçado, mas depois dos ataques terroristas no Vaticano, suas idéias começaram a mudar. Mas por fim, a Guerra acabou. Um acordo de paz, e regras sobre clonagens.
Sirius saiu de seu devaneio ao sentir o vibrador de seu celular.
- Sim.
- Doutor… já está quase na hora. O senhor…
- Já estou indo Kusanagi.
- Ok, estamos o aguardando.
Sirius desligou seu celular. Respirou fundo e caminhou até a porta. Olhou novamente para seu quarto e para a TV. Passava agora uma reportagem sobre o aquecimento global. Mostravam o que sobrara do antigo EUA. Uma veradeira bola de neve… e o restante debaixo da água. Assim como tantos outros países. Por incrível que pareça, o Brasil saiu intocado daquilo tudo. Está certo que cidades litorâneas foram hoje estavam submersas, mas isto tudo era coisa do passado. O ano de 2064 era diferente. Um inferno na Terra deixado pelos mais antigos. Sempre se lembrava de seu avô dizendo “todos falavam que até o ano de 2015 começariam a arrumar a bagunça com a natureza… é, só disseram. E agora olha só… A África nem mais existe por causa de um idiota que apertou a bomba. Quantas pessoas mortas? E o Japão? Meu neto… aquilo foi horrível“. E depois disso ele chorava por horas.
- E aqui estamos… tentando salvar o que restou.
Sirius fechou a porta e caminhou pelo corredor. Morava com mais de uma centena de outros cientistas e um outro tanto de militares a uns 50 kilometros da superfície. Nem mesmo se lembrava mais de como era o mundo lá em cima. Apenas que era quente e quase impossível da humanidade sobreviver. Os poucos que puderam, desceram para de baixo da Terra. Enquanto outros… os menso favorecidos, ficaram a mercê da sorte e de Deus.
“Tanto se perdeu…” como meu pai dizia, “a Biblioteca de Alexandria novamente foi destruída. E agora? Quanto de nosso futuro se perdeu? Tantos projetos foram por ralo abaixo. Nem mesmo o projeto espacial sobreviveu. A história terá que ser reescrita, mas por quem? Por estes mesmos homens que cometem os mesmos erros do passado? A Deus… se você realmente existisse, nada disso aconteceria.“
Chegou até o elevador. Girou a chave e entrou. Uma brisa com aroma do mar saiu pelo buraco acima. Passou pelo nível 2, local do projeto “7º Dia”. Nem ao menos imaginava o que poderia ser aquilo. Talvez uma referência ao tempo que demoraram para acabar com a Guerra? Deixou seus pensamentos de lado quando o elevador parou. Saiu e seguiu adiante até a sala principal.
- Kusanagi… como estamos?
- Tudo pronto doutor. Já começamos a gravação. O senhor…
- Tenho certeza Kusanagi. Obrigado. Ligue a sequência.
Sirius sorriu para o oriental. Seu único amigo verdadeiro nestes últimos anos de solidão. Kusanagi era um homem com seus 45 anos, baixo e magro. Sem família, como Sirius. Já Sirius, mais novo, 35 anos, 1,80, cabelos negros e olhos tão negros como a noite, era uma das maiores mentes já existentes. O comparavam a tantos do passado, que nem ao menos fazia sentido lembrar os nomes.
Sirius chegou até uma câmara. Passou sua mão pela borda. Fria e lisa. Começou a retirar sua roupa, enquanto uma enfermeira colocava os fios nele.
- Doutor, a programação é de 5 anos. Estamos certos que…
- Natália, por favor. Eu sei…
Sirius sorriu para a enfermeira enquanto começava a entra na câmara. Parecia que deitava em seu próprio caixão, o que não deixava de ser verdade. Ele estava com um tipo de câncer no cérebro, diferente de tudo até então que a ciência havia visto. E somente a criogênia e o futuro poderiam salvá-lo. Mas não era isso que ele esperava. O seu desejo era simplesmente se desligar do mundo. E quem sabe, seus cálculos estarem errados e ele poder se encontrar com sua família do outro lado.
Um sorriso brotou em seus lábios. Este era o pensamento de sua mãe. Não o dele.
Uma pequena rajada de gás entrou e ele respirou fundo. Sua mente começou a divagar. Mas algo estava errado. As luzes começaram a piscar em um vermelho. “Alarme, o que…” De repente uma mão bateu em sua câmara… sangue. Era Natália. Seus olhos estavam sem vida. Sirius bate com força no vidro, mas a sequência já havia começado. Tentou lutar, mas seu corpo não mais respondia.
Seus olhos começaram a ficar nublados… uma luz apareceu em sua frente… “Um anjo?” Não, apenas uma explosão.