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3º Dia – Parte 1

21 out

Capítulo I

“Em algum lugar, algo incrível está esperando para ser descoberto.”
Carl Sagan

A chuva batia forte no rosto da jovem. Sua roupa estava toda molhada, grudada totalmente em sua pele. Mas ela continuava em silêncio. Agarrada no muro da cidade, olhava para baixo, na saída do esgoto de Éden. Seus olhos foram atraídos pelo forte clarão acima de sua cabeça. Seu corpo tremeu, mas não de frio.

Ela viu, aquela visão fantasmagórica. Um ser com uma longa espada em sua mão. Ele era totalmente brilhante, com olhos sem vida. Mas um rosto e corpo lindo. Era um Arcanjo. Um enviado de Deus.

Mas será que ele a tinha visto? Ela estava cometendo um pecado, e dos grandes. Sua família não era bem vista em Éden. Eram proscritos. Sua mãe e pai, foram espulsos do paraíso quando ainda era um bebê. Crescera como uma escrava. E agora, depois de ter brigado com Madalena, sua dona, lá estava ela, com sua roupa toda molhada e sem saber para onde ir. A não ser para fora, dos muros de Éden.

O Arcanjo continuava parado, como a contemplar o horizonte. Ela respirou fundo, e este foi seu erro. Uma fumaça saiu de sua boca, devido ao calor de seu corpo com o ar frio do fim da tarde. Um vento e um barulho, o máximo que pode escutar.

De repente, lá estava ele, lindo, angelical. Seu peito nú, uma quase saia protegia sua cintura.

– Filha… – sua voz era suave, límpida – você deve ser punida em nome do Senhor.

Ela fechou os olhos. Quando o abriu, a espada descia para acertar sua cabeça. Ela não sabe de onde tirou forças, talvez do medo. No último instante, se desviou. Seu pé perdeu o equílibrio e ela caiu. O Arcanjo apenas a observava de longe. Sentiu um baque, o sangue escorrer por sua boca. Um calor do seu braço. Ele a havia cortado. Sua mente começou a perder o foco do mundo. Seu último pensamento, “finalmente vou para o inferno”.

 

– Arrrggggghhhhh!!!

– Espera, cuidado!

Um novo grito saiu de sua garganta. Não sabia onde estava. Tudo estava escuro.

– Espera menina!

Um tapa em seu rosto a trouxe de volta. Sua cabeça foi colocada com cuidado em algo macio. Virou seu rosto para o lado e viu uma senhora, idosa, cabelos longos e brancos. Mas não tinha um dos olhos.

– Quem… quem…

– Shiiiuuuu. Fique quietinha. Nem acredito que você conseguiu sobreviver. Graças aos anciões. Meu nome é Catarina. A encontrei no meio do lixo menina. O corte no seu braço já está quase curado, não foi fundo. Mas… UAU, como você conseguiu sobreviver de uma queda daquelas? Acho que deve ter sido o lixo. Bem, o que interessa é você ficar quietinha.

– Onde?

– Você está fora do Paraíso menina. Esta é uma vila de proscritos. Bem, ou o que sobrou de nós. Sabe, de vez em quando aparece um Arcanjo e… VUSH, sabe, mata a gente ou leva para algum lugar. Agora dorme.

Ela bem que queria tentar ficar acordada, mas seus olhos não permitiam.

 

Acordou pela manhã, com um cheiro gostoso chegando em sua narina. A luz entrava por uma fresta vinda da parede. O som de pessoas conversando do lado de fora e o riso eram amistosos. Algo que não lembrava fazia muito tempo. Levantou-se, colocou seus pés no chão, frio e seco. Seu corpo estava nú. Sentiu asco por terem tirado sua roupa. Como ousaram? Isto era proíbido em Éden… mas ela não estava mais no Paraíso, e eles a tinham salvo. Achou um manto com uma muda de roupas. A vestiu e saiu.

A luz era forte do lado de fora. Um sol que ela nunca tinha imaginado. A fragrância de flores e outros aromas desconhecidos, a deixaram desnorteada.

– Olha só, finalmente a menina acordou. Pensamos que não acordava mais!

– Quanto tempo eu dormi?

– Ah, só uma semana.

– Uma semana? O corpo dela tremeu, e percebeu o quanto estava fraca.

– Bem menina, você até acordou algumas vezes, mas devido a febre. Ah, bem, não sei se lembra, mas meu nome é Catarina. Este é o Leto, nosso bom velhinho. Mas não precisa comprimentar com as mãos não… ele não tem braço. Os Arcanjos tiraram dele. Aquele moleque é o Abraão. Nasceu aqui, do lado de fora.

– Como assim? Sem o consentimento do nosso…

Uma mão forte a pegou pelo pescoço e a outra em sua boca. Um braço forte.

– Não diga o nome DELE aqui, nem mesmo a nomenclatura menina!

Sua voz era forte, como seu abraço. Ele a soltou e ela colocou sua mão no pescoço. Uma tosse espeliu o ar contido em seu peito.

– Ah, desculpa menina, este é o Jaime. Nosso protetor. E ele falou a verdade. Se você diz o nome DELE, os bichos aparecem e PUF, era uma vez a vila.

– Desculpe, eu não sabia… mas ainda não entendi…

– Não tem o que entender, disse o homem;

Ela olhou para Jaime. Era um homem alto e forte. Sua cor era negra, quase azul. Jamais tinha visto alguém como ele.

– HAHAHAHA, pelo visto nunca viu um negro! A muito que precisa aprender sobre o mundo aqui fora minha pequena. Mas antes, qual o seu nome?

– Cássia, apenas Cássia.

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Publicado por em outubro 21, 2008 em Terceiro Dia

 

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