RSS

3º Dia – parte 2

22 out

Capítulo 2

“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.”
Albert Einstein

– Maldito programa!

Sirius jogou o controle da TV longe. Estava cansado das discussões calorosas sobre seu projeto. Encostou sua cabeça no sofá e escutou.

– Mas a senhora não acha que este, chamado projeto, não vai contra os pensamentos de Deus? Este doutor, com nome estranho…

– Sirius. O pai do doutor era um antropólogo grego e sua mãe… – disse a tal da senhora.

– Sim, sim… estamos cansados de saber sobre quem são seus pais. Principalmente sua mãe. Joana era uma mulher admirável, diferente do pai e do filho. Deus! Ela foi uma das mulheres que lutaram pela liberdade religiosa!

“E morreu pelas mãos de um louco que achava sua idéia um absurdo…” – pensou Sirius. Ele levantou-se e foi até a cozinha, enquanto deixava os dois discutindo sobre seu projeto. Olhou novamente para a secretária eletrônica, 28 mensagens. Nem queria ouvi-las. Sabia muito bem o que diziam. Desde que começou o projeto 3º Dia, a imprensa, e principalmente os religiosos, o colocaram na mira. Não entendia porque tanto alvoroço! A final de contas, ele apenas conseguira desenvolver um modo de colocar as pessoas para “dormirem”. Pessoas com doenças que nossa medicina ainda não pudera curar. Que problema havia nisso! A criogênia era melhor do que a clonagem! Isto sim era uma afronta. Ainda bem que fizeram a Lei em favor dos Clones. Quantos andavam por aí? E quantos nem ao menos sabiam quem eram. O único problema, era sua vida útil. Chegavam a no máximo 30 anos, e depois morriam. Mas eram fortes, mais inteligentes… e agressivos. E heis o grande problema.

Sirius ainda se lembrava da Guerra. Clones, homens e cyborgs. Os cyborgs eram como nós, mas sem emoções. Homens de lata, como ele costumava chamá-los, mas com pele e Inteligência Artificial. Já os Clones… Sirius os admirava, tanto que ganhou o apelido de “namoradinho clonico”. No começo achou engraçado, mas depois dos ataques terroristas no Vaticano, suas idéias começaram a mudar. Mas por fim, a Guerra acabou. Um acordo de paz, e regras sobre clonagens.

Sirius saiu de seu devaneio ao sentir o vibrador de seu celular.

– Sim.

– Doutor… já está quase na hora. O senhor…

– Já estou indo Kusanagi.

– Ok, estamos o aguardando.

Sirius desligou seu celular. Respirou fundo e caminhou até a porta. Olhou novamente para seu quarto e para a TV. Passava agora uma reportagem sobre o aquecimento global. Mostravam o que sobrara do antigo EUA. Uma veradeira bola de neve… e o restante debaixo da água. Assim como tantos outros países. Por incrível que pareça, o Brasil saiu intocado daquilo tudo. Está certo que cidades litorâneas foram hoje estavam submersas, mas isto tudo era coisa do passado. O ano de 2064 era diferente. Um inferno na Terra deixado pelos mais antigos. Sempre se lembrava de seu avô dizendo “todos falavam que até o ano de 2015 começariam a arrumar a bagunça com a natureza… é, só disseram. E agora olha só… A África nem mais existe por causa de um idiota que apertou a bomba. Quantas pessoas mortas? E o Japão? Meu neto… aquilo foi horrível“. E depois disso ele chorava por horas.

– E aqui estamos… tentando salvar o que restou.

Sirius fechou a porta e caminhou pelo corredor. Morava com mais de uma centena de outros cientistas e um outro tanto de militares a uns 50 kilometros da superfície. Nem mesmo se lembrava mais de como era o mundo lá em cima. Apenas que era quente e quase impossível da humanidade sobreviver. Os poucos que puderam, desceram para de baixo da Terra. Enquanto outros… os menso favorecidos, ficaram a mercê da sorte e de Deus.

Tanto se perdeu…” como meu pai dizia, “a Biblioteca de Alexandria novamente foi destruída. E agora? Quanto de nosso futuro se perdeu? Tantos projetos foram por ralo abaixo. Nem mesmo o projeto espacial sobreviveu. A história terá que ser reescrita, mas por quem? Por estes mesmos homens que cometem os mesmos erros do passado? A Deus… se você realmente existisse, nada disso aconteceria.

Chegou até o elevador. Girou a chave e entrou. Uma brisa com aroma do mar saiu pelo buraco acima. Passou pelo nível 2, local do projeto “7º Dia”. Nem ao menos imaginava o que poderia ser aquilo. Talvez uma referência ao tempo que demoraram para acabar com a Guerra? Deixou seus pensamentos de lado quando o elevador parou. Saiu e seguiu adiante até a sala principal.

– Kusanagi… como estamos?

– Tudo pronto doutor. Já começamos a gravação. O senhor…

– Tenho certeza Kusanagi. Obrigado. Ligue a sequência.

Sirius sorriu para o oriental. Seu único amigo verdadeiro nestes últimos anos de solidão. Kusanagi era um homem com seus 45 anos, baixo e magro. Sem família, como Sirius. Já Sirius, mais novo, 35 anos, 1,80, cabelos negros e olhos tão negros como a noite, era uma das maiores mentes já existentes. O comparavam a tantos do passado, que nem ao menos fazia sentido lembrar os nomes.

Sirius chegou até uma câmara. Passou sua mão pela borda. Fria e lisa. Começou a retirar sua roupa, enquanto uma enfermeira colocava os fios nele.

– Doutor, a programação é de 5 anos. Estamos certos que…

– Natália, por favor. Eu sei…

Sirius sorriu para a enfermeira enquanto começava a entra na câmara. Parecia que deitava em seu próprio caixão, o que não deixava de ser verdade. Ele estava com um tipo de câncer no cérebro, diferente de tudo até então que a ciência havia visto. E somente a criogênia e o futuro poderiam salvá-lo. Mas não era isso que ele esperava. O seu desejo era simplesmente se desligar do mundo. E quem sabe, seus cálculos estarem errados e ele poder se encontrar com sua família do outro lado.

Um sorriso brotou em seus lábios. Este era o pensamento de sua mãe. Não o dele.

Uma pequena rajada de gás entrou e ele respirou fundo. Sua mente começou a divagar. Mas algo estava errado. As luzes começaram a piscar em um vermelho. “Alarme, o que…” De repente uma mão bateu em sua câmara… sangue. Era Natália. Seus olhos estavam sem vida. Sirius bate com força no vidro, mas a sequência já havia começado. Tentou lutar, mas seu corpo não mais respondia.

Seus olhos começaram a ficar nublados… uma luz apareceu em sua frente… “Um anjo?” Não, apenas uma explosão.

Anúncios
 
Deixe um comentário

Publicado por em outubro 22, 2008 em Terceiro Dia

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: