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Arquivo mensal: março 2009

WATCHMEN: resenha do filme

Imenso e arrebatador!

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Para quem viveu os anos 1980, até a queda do Muro de Berlin em 1989 (bem, tem gente por aí que ainda não acredita que isso ocorreu, enfim…), a ameaça de aniquilação nuclear era uma coisa muito séria. As superpotências, os Estados Unidos e a União Soviética, tinham estoques de milhares de ogivas nucleares, que poderiam extinguir toda a vida no planeta dezenas de vezes.
Muitos foram os que, diante do monumental desafio de adaptar Watchmen ao cinema, pensaram em “atualizar” a história, trazendo-a para nossos dias. Felizmente, Zack Snyder teve a visão, o bom senso e a habilidade de persuasão necessárias para que o filme fosse realizado como tinha que ser.

O resultado? Nem poderia ser diferente, a melhor adaptação de uma obra de Alan Moore para as telonas!

Lembrando que podem existir SPOILERS adiante, nada comprometedores, mas se não quiser saber nada, melhor parar de ler por aqui, combinado?

O filme faz jus a HQ, que por sinal está na lista da Time como uma das 100 maiores obras literárias da língua inglesa do século vinte. Sim, uma história em quadrinhos! Tem muito crítico por aí que vai ter sua cuca fundida por esse filme, podem aguardar!
Watchmen, o filme, é um fiel retrato na telona da HQ de Alan Moore e Dave Gibbons. As adaptações e mudanças foram corretas e ajudam nessa sempre difícil transposição, talvez com a exceção do momento em que Walter Kovacs, alter ego de Rorschach, fala sobre seu surgimento ao psicólogo da prisão.

O final… sem dúvida, irá causar polêmica entre os fãs, então deixemos para daqui a pouco. Falamos aqui de Rorschach, e é obrigatório falar de quem lhe dá vida no filme, o estupendo Jackie Earle Haley. Um trabalho absolutamente primoroso, mergulhando no sombrio e psicótico vigilante, e o mais assustador é quando vemos a verdadeira face de Rorschach, tanto na entrevista com o psicólogo quanto na cena da briga na fila do almoço. Haley conseguiu fazer Kovacs ficar ainda mais sombrio e aterrorizante que o vigilante mascarado.

E sim, seu trabalho vocal está aterrador. Essa sem dúvida é a voz das trevas, fazendo gelar o coração!

Outro que fez um trabalho magnífico é Jeffrey Dean Morgan como Edward Blake, o Comediante. Ele faz barbaridades no filme, exemplificados tanto na cena do quase estupro de Sally Júpiter, quanto no frio assassinato da jovem vietnamita. Mas simplesmente é impossível odiar esse cara. Já no controle dos tumultos que antecederam a implantação da Lei Keene, que baniu os super-heróis, o Comediante mostra para um aturdido Coruja sua honesta opinião sobre onde foi parar o decantado “sonho americano”.

Blake, como na HQ, finalmente entendeu o mundo, reagindo a ele de sua forma bem peculiar, como se tudo fosse uma piada. E é esse caos, essa situação que segue em uma inevitável espiral rumo a destruição, que mostrará a muitos espectadores desavisados que os super-heróis desse filme são bem diferentes dos que conhecíamos até então.

Quem for ao cinema esperando um genérico de Batman ou Homem de Ferro terá uma grande surpresa. Bem, só de ver a faixa etária do filme, que poderá até cair em 18 anos, se tem a certeza de que, da mesma forma que a HQ, esse filme se destina a romper padrões.

Rompimento esse que, na cabeça do homem mais inteligente do mundo, Ozymandias, ou Adrian Veidt, é absolutamente necessário para salvar o mundo. De antigo herói para empresário bem sucedido, capaz de “peitar” os maiores capitães da indústria apenas para fazer valer seus objetivos, Veidt acaba se revelando talvez tão psicótico quanto o próprio Rorschach.
O filme é um turbilhão de emoções, seus 163 minutos absolutamente recheados de informações, tanto que é necessário um tempo para assimilar tudo, depois de sair da sala completamente aturdido. É sensacional ver cenas descritas em Sob o Capuz, o livro escrito por Hollis Mason, o primeiro Coruja, transpostas para a tela. Incluindo aquela que fez Edna Moda, dos Incríveis, inventar seu bordão: “nada de capas!”. Igualmente impactante é a fala do Dr. Milton Glass, fazendo comentários plenos de estupefação quanto ao Dr. Manhattan.

Falando no azulão, além de sua impressionante presença em cena (sem trocadilhos, gente, mesmo que seu “instrumento” apareça, sim, mas como na HQ, nada chocante), é amedrontador ver como ele vai progressivamente se afastando mais e mais do contato humano. A entrevista na TV, que começa divertida com seu repentino surgimento e seu acerto no tom de azul, tem certas mudanças em relação aos quadrinhos, mas totalmente de acordo com o limite de duração aceitável de um filme. Lembrando sempre que são mídias diferentes, mas o resultado ficou muito bom.

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As figuras históricas, como John Kennedy, Richard Nixon, Henry Kissinger e outros, foram reproduzidas de forma impressionante e fiel. Igualmente as épocas retratadas foram muito bem recriadas, bem como o sentimento de hecatombe se aproximando, com o relógio do fim do mundo dos cientistas atômicos, a sala de guerra onde Nixon ouve os “sábios” conselhos de seu estado maior, descrevendo o que são “perdas aceitáveis” na guerra que está por vir. A música do filme também é um capítulo a parte, tendo nomes como Nat King Cole, Billie Holliday, Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Nessa força da natureza que ameaça nos arrastar, quem ficou com o trabalho mais pesado de ser o contato humano com a audiência foi Espectral e Coruja. Malin Akerman e Patrick Wilson estão ótimos, extremamente fiéis a HQ, e protagonizando grandes cenas, como a luta no beco, o sonho de Dreiberg, o salvamento do prédio em chamas, a cena de sexo na nave (que ficou de tirar o fôlego), o salvamento de Rorschach da prisão, até o estrondoso final. Em sua luta por não serem também arrastados pela onda de acontecimentos, e seu desejo de apenas levar uma vida normal, o casal com certeza nos representa na trama.

E falando em Espectral, sim, ela está um t… maravilhosa! Só a cena dela surgindo, já de uniforme, quando ela e o Coruja vão sair com o Archimedes, nos deixa de boca aberta. Bem como o próprio Coruja, aliás!

Sim, as cenas em Marte são estupendas, e repare nas Torres Gêmeas do World Trade Center, através das janelas do escritório de Ozymandias. E uma certa banca de revistas está bem ali, bem como um conhecido e muito frequentado restaurante de Nova York.

E chegamos ao final. Impactante. Com um quebra pau lascado entre três heróis. Com diálogos retirados em sua totalidade da HQ, coisa que permeia todo o filme. E o grande plano, afinal, qual é?

Não vamos aqui revelar qual a grande mudança, em relação aos quadrinhos. Particularmente, prefiro o da HQ. Tem tudo a ver com a época, 1985, lembrando a famosa declaração do presidente Ronald Reagan naquela segunda metade dos anos 80 em plena Assembléia Geral das Nações Unidas (confira lá em nossa seção Beyond). Reagan, por sinal, é mencionado ao final do filme de forma bem divertida. De todo modo, o final proposto pela HQ representa um acontecimento que, seguramente, poderia dar uma grande contribuição para a união de todos sobre este pequeno planeta. Poucos acontecimentos diversos daquele poderiam realmente dar essa chance a humanidade.

Já que não mudaram a época da trama, por que mudar o final, poderíamos perguntar. Certamente, acrescentaria ainda mais complexidade a um filme já extremamente denso, tenso e complexo. Bem como vários e vários minutos extras. Watchmen certamente não é uma obra acessível, e talvez os produtores não quisessem torná-la ainda mais hermética, talvez.
Mas o final do filme, efetivamente, funciona e faz sentido! É impactante e espetacular, e mesmo sem a pilha de corpos da HQ, sem dúvida apenas a idéia de tamanha destruição já é aterradora o suficiente. Quem é fã xiita vai chiar e muito, mas qualquer xiita é assim, não é mesmo?

Um problema é que podem surgir comparações com uma outra produção recente… mas se falarmos mais, iremos revelar mais do que se deve, então é melhor parar por aqui.

Enquanto estamos todos ansiosos para pôr as mãos na nova edição da HQ, com capa dura e recheada de extras e que para variar está demorando para sair no Brasil-sil-sil, vale e muito a pena conferir Watchmen nos cinemas. A idéia original de Moore era confrontar o paradigma dos super-heróis bonzinhos e corajosos, que sempre apareciam na hora H para nos salvar. Nesta obra, não é bem assim. De fato, em muitos aspectos, a existência dos heróis tornou o mundo um lugar muito pior. Depende de nós desfazer isso, e francamente, tanto na produção, quanto aqui em nossa realidade, não estamos fazendo lá um trabalho que se possa elogiar.

Os heróis são uma mitologia dos nossos dias, e afrontar essa mitologia foi a proposta original de Watchmen. O filme chega em um momento em que os heróis dos quadrinhos mais e mais invadem as telonas, ou seja, dificilmente haveria um melhor momento para vermos Watchmen nos cinemas.

O melhor sem dúvida será os questionamentos que o filme irá levantar, inclusive trazendo novos leitores para essa primorosa obra literária (olha os críticos com fumaça saindo de suas limitadas cabecinhas de novo…). Versão estendida nos cinemas? Não sabemos. Temos um triste histórico, aqui no Brasil, com versões estendidas… Honestamente, o filme já é longo o suficiente. Mas certamente já estamos salivando pelo DVD!

Watchmen desconstruiu os quadrinhos de super-heróis há perto de um quarto de século, e o filme faz o mesmo com os filmes de super-heróis neste ano de 2009. Vá correndo conferir, pois não é todo dia em que você pode assistir a uma obra que dividirá o cinema em antes e depois de sua estupenda realização.

 
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Publicado por em março 4, 2009 em Dicas