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A Mitologia de Star Wars

28 maio
Que Star Wars é um fenômeno do cinema todo mundo já sabe. Que Star Wars cativou os corações e mentes de todo o planeta também. O que pouca gente sabe é que os mais importantes fatores de todo este sucesso são justamente os que transcendem os efeitos especiais ou a ficção científica que cercam a saga e que são na verdade o coração de sua história: seus conceitos mitológicos. Antes de mais nada, é preciso ter em mente que o termo “mitologia”, no caso de Star Wars, não trata apenas das lendas nascidas das culturas grega e romana, mas se expande para diversas outras culturas, indo desde as lendas arturianas até o folclore nórdico e valendo-se até mesmo de referências históricas, religiosas e do próprio cinema para compor a trama central que permeia esta que é a mais impressionante saga da história do cinema.
Pois bem, quando se fala em Star Wars na maioria dos casos a primeira imagem que vem à mente da maioria é a daquele que para alguns é o maior vilão da história do cinema: Darth Vader. A personalidade de Vader foi criada, dentre outras referências, também com base na lenda grega de Cronos e Zeus. Segundo esta lenda, Cronos era um Deus que tinha muito medo de que seu poder pudesse um dia ser usurpado. Assim, para evitar que isso acontecesse, ele tinha o (digamos, péssimo) hábito de comer todos os seus filhos, justamente para garantir a perpetuação de seu reinado.

Zeus, seu fi lho, foi escondido de Cronos logo após nascer, e mais tarde viria exatamente a tomar o lugar de Cronos, tornando-se o Deus-Sol do panteão grego.

Esta relação Cronos-Zeus se justifi ca não só no aspecto mau de Vader como também no aspecto de “herói oculto” do personagem Luke Skywalker, que (como se verá em “Episódio III: A Vingança dos Sith”) foi escondido de Vader para que mais tarde se tornasse o “redentor” de seu pai…
Aliás, essa história de “redenção” entre pai e filho foi indicada pelo próprio Lucas durante uma entrevista feita com ele e Joseph Campbell, exibida em 2000 durante a “Maratona Star Wars”, pelo Telecine. Nesta entrevista, Lucas fala que os pais esperam, de uma certa forma, que seus filhos os redimam por seus desacertos, o que se observa não só nas relações entre pais e fi lhos através da história, como também nas relações contemporâneas. Esta redenção fica clara em “O Retorno de Jedi”, principalmente quando Vader diz a Luke que este já o havia salvo, mesmo estando ele à beira da morte. Uma outra referência mitológica pode ser vista em “Episódio IV – Uma Nova Esperança”, quando a princesa Leia oferece a Luke, Han e Chewbacca uma chance de obter uma recompensa caso a levassem até a base rebelde.

Trata-se de uma releitura do conto mitológico “Jasão e Os Argonautas”, onde a busca dos heróis é o chamado “Velo de Ouro”, um carneiro dourado que na verdade é a representação da constelação de Áries…

Além deste, podemos ver também uma recriação da lenda de Orfeu e Eurídice, onde Orfeu decide, com o consentimento do Deus Hades, descer até as profundezas do inferno para resgatar sua amada Eurídice. Entretanto, ao resgatá-la Orfeu deveria conduzi-la até a superfície na frente de seu amor, e sem jamais olhar para trás. Quase chegando na superfície, porém, tomado de afl ição por ouvir os constantes suplícios de Eurídice ele resolve olhar para trás, e neste momento ela se transforma numa estátua. Uma metáfora desta lenda se torna clara entre os Episódios I e II de Star Wars, onde ao retornar para Tatooine o jovem Anakin Skywalker dá vazão, pela primeira vez, a toda a sua fúria cega, deixando aberto o caminho para o lado negro da Força… (nota: a própria referência ao termo “não olhe para trás” pode ser vistos em pôsteres lançados pela Lucasfilm…)

Outro conto mitológico está na própria Estrela da Morte, a qual guarda correlação com antigas representações gráfi cas do Labirinto de Creta. O Labirinto era um símbolo do desconhecido, um local onde os guerreiros que lá se aventuravam jamais retornavam, tornando-se portanto um sinônimo de morte.

A Estrela da Morte se reveste desta mesma aura mitológica, por seu caráter de entidade desconhecida e por ser também uma representação da própria destruição.
Entretanto, talvez a mais forte infl uência mitológica em Star Wars não venha nem da Grécia antiga nem dos Romanos, mas sim das Lendas Arturianas. A origem destas histórias não são precisas (já que existem referência aos bretãos, aos gaélicos e até mesmo aos celtas nestas lendas), mas a força de suas narrativas causaram tamanho impacto no imaginário popular da Grã-Bretanha que a tradição oral ou escrita se incumiram de perpetuar os “Contos de Arthur” até o presente.
Duas são as mais importantes referências arturianas vistas em Star Wars. A primeira trata da relação entre Luke Skywalker e o velho Obi-Wan Kenobi, que é um refl exo da relação que temos entre o jovem Arthur e o mago Merlin. Nas Lendas Arturianas, Merlin foi o responsável pela iniciação do Rei Arthur, guiando-o pelo início de seu “caminho do herói”, o que ocorre de maneira quase idêntica entre Obi-Wan e Luke. O sacrifício dos mentores também se dá de forma bastante parecida, sendo que em ambas as histórias estes abrem mão de suas próprias existências, deixando que os heróis tomem o destino de suas vidas em suas próprias mãos de modo que eles possam se tornar, por si sós, os heróis a que estão fadados a ser.
A segunda é a simbologia da própria espada. Tanto nos contos da Távola Redonda como em Star Wars, os heróis atribuem a suas espadas um caráter de honradez, altruísmo e reverência, o que faz com que a ostentação de uma espada seja um símbolo de força e dignidade. O mesmo conceito se vê nos Cavaleiros Jedi de Star Wars, os quais portam seus sabres-de luz por serem os (segundo as palavras do próprio Obi-Wan) “guardiães da paz e da justiça na galáxia”. A associação entre espada e heroísmo é tamanha, que George Lucas inclusive aproveitou este simbolismo para ilustrar o primeiro pôster promocional de Star Wars de todos os tempos: a clássica figura de Luke empunhando para o alto seu sabre-de-luz, a qual foi repetida na capa do Box dos DVDs da Trilogia Clássica recentemente lançados. Mas e a tal da “Força”?
Como ela foi criada? Para uma análise deste conceito que ultrapassa os conceitos meramente míticos, é preciso analisar as diversas religiões existentes atualmente, já que a própria Força era vista no fi lme como uma religião.
O próprio Lucas declarou sua opinião de que é necessário que as pessoas tenham alguma religião, como um instrumento para recuperar forças e obter algum norte para suas vidas. Assim, exteriorizou este desejo com a criação de um conceito que segundo Francis Ford Coppola seria “uma nova religião”: a Força. Este conceito não foi criado 21 com a finalidade específi ca de se formar uma nova religião (tanto que em Episódio I foram criados os tais midi-chlorians, para desmistifi car um pouco deste conceito religioso), mas sim para mostrar às pessoas que acreditar em algo que ultrapassa nossas percepções físicas é importante para ganharmos fé e esperança no dia-a-dia.
A Força foi criada principalmente com referências advindas do Budismo, principalmente de suas escolas tibetana (representadas principalmente no ato de meditar) e japonesa (vistas nos atos da concentração e em sua associação com a arte da esgrima japonesa, a qual serve de base para os combates de sabre de-luz vistos na saga). Além disso, diversas referências à igreja católica podem ser encontradas no fi lme, como por exemplo o mistério da concepção (já que, conforme vemos em Episódio I, a mãe de Anakin Skywalker não soube dizer de que maneira seu fi lho fora concebido) e a tentação do demônio a Cristo (visto no chamado feito pelo Imperador a Luke para que este se junte ao Lado Negro da Força, em “O Retorno de Jedi”).
Além das religiões, diversos conceitos filosóficos e psicolócos foram utilizados na saga. No campo da filosofia, uma das várias citações vistas nos filmes pode ser vista na lição de “falta de fé” trazida por Kierkegaard, onde a hesitação fatalmente se transforma na causa da derrota. Como prova deste conceito, temos que é justamente a fé inabalável de Luke em sua própria capacidade de vencer os obstáculos a responsável pelo triunfo do herói contra o império.

Os conceitos psicológicos utilizados por Lucas, por seu lado, trataram de ser utilizados de forma individualizada, ou seja, diversas facetas da personalidade humana foram exteriorizados em cada um dos personagens centrais da trama.
Assim, temos desde a virtude mais pura (representada por Luke), até o instinto animal (como vemos em Chewbacca), passando pelo lado humorístico (de 3PO e R2), e tratando até do movimento da liberação feminina que atravessava a década de 70, a qual é personificada pela imponente e “guerreira” princesa Leia.

Neste contexto, um personagem merece especial análise: o anti-herói Han Solo. Apesar de ser um dos “mocinhos” do fi lme, ele não se preocupa com a bondade existente em suas ações, e sim com seu próprio ego e com seus interesses.
Um exemplo clássico de antiherói(ina) é a feiticeira Medéa, que tinha por objetivo vingar-se do homem que amava e que a abandonara por outra mulher. Também Loki, o Deus Nórdico, é outro exemplo de anti-herói, o qual na verdade é um tanto diferente do Loki dos quadrinhos, diga-se de passagem. Os anti-heróis têm como característica principal contradizer e questionar os valores morais socialmente usuais, e Han Solo certamente cumpre muito bem esta função na trama de Star Wars.
Finalmente, devem ser mencionadas todas as referências históricas existentes na saga, dentre as quais podemos citar o Japão medieval, a Primeira e Segunda Guerra Mundiais, costumes tribais da África Colonial, sistemas políticos europeus, etc.
Como podemos ver, Star Wars é mesmo muito mais um simples grupo de filmes de ficção ou mesmo um fenômeno do entretenimento. Star Wars representa uma coleção de diversos elementos da “essência humana”, suas histórias, suas estórias, suas emoções, e tudo isso não poderia ter tido outro resultado: cativar os corações e mentes de milhões e milhões de pessoas por todo o mundo…
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Publicado por em maio 28, 2010 em Curiosidades

 

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